Noticiário SDDH

Um tributo a Luiz Maklouf


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 Por Paulo Ferreira

 

 

            A morte do Mak (Luiz Maklouf Carvalho), neste sábado (16/05/2020), mexeu com todas as pessoas que conviveram com ele aqui em Belém. Além da sua contribuição política no movimento estudantil, nos anos 1970, deixou uma marca profunda no processo de construção da Sociedade Paraense de Direitos Humanos - SDDH (1977) e criação do “Resistência” (1978). Junto com Paulo Fonteles e José Maria Souza (ambos já falecidos) ele se empenhou na viabilização do jornal, que nasceu rompendo com o conceito de imparcialidade, objetivismo e sensacionalismo.

 

            A biografia do jornalista Maklouf formou-se numa simbiose com o jornal, uma forte referência da luta pela democracia no Pará e no combate à ditadura de 1964. E isto está expresso na capa: “Resistir é o primeiro passo”, bem abaixo do título. E no editorial da primeira edição, a sua linha de compromisso: “um jornal que assuma uma posição, que se coloque ao lado do time mais fraco, sabendo-o, de longe, o mais forte”.

 

            Mak foi o primeiro editor do “Resistência”. E também repórter, articulista e jornaleiro. Os primeiros números foram editados na casa dele, do jeito que gostava de trabalhar. Ouvindo música, bebendo e brincando com o diagramador e outros colaboradores.

 

            Enfrentou com muita firmeza o inquérito policial-militar e a tentativa de enquadramento na Lei de Segurança Nacional (LSN) de todos os responsáveis pelo jornal, após a apreensão da edição número cinco, de agosto de 1978, cujo título era: “Fomos torturados no Ministério do Exército”. A manchete chamava para a matéria com o depoimento de quatro militantes da SDDH e ex-presos políticos do regime militar: Paulo Fonteles, Hecilda Veiga, Humberto Cunha e Izabel Tavares Cunha.

 

            A Polícia Federal apreendeu quase toda a edição, ainda na Gráfica Salesiana do Trabalho e levou o gerente da gráfica, Paulo Rocha (hoje senador) para prestar depoimento na sede da PF, em Belém. Somente 500 exemplares foram retirados antes da chegada da Polícia. Todos os nomes que constavam no expediente do jornal foram chamados para depor.

 

            Foram fotografados de frente, de perfil e tiveram que responder a interrogatório. A ordem contra o “Resistência” partiu do ministro da Justiça, Armando Falcão. Mas o tiro saiu pela culatra. O jornal não se intimidou e voltou a publicar matérias que criticavam a ditadura e os torturadores. A SDDH convocou uma vigília cívica e o caso ganhou repercussão nacional. Até que a denúncia feita pelo auditor militar não foi aceita pelo Superior Tribunal Militar (STM).

 

            Em outubro de 1982 a gráfica Suyá, que imprimia o “Resistência”, foi invadida, sem ordem judicial. Um delegado e vários agentes da Polícia Federal foram recebidos pelos jornalistas Luiz Maklouf, João Vital e Carlos Boução; por um dos sócios da gráfica, Daniel Veiga, e pelo gerente da Suyá, Alberdan Batista. Mak, que era formado em direito, questionou a legalidade da operação, foi agredido e algemado.

 

            O objetivo da PF era apreender material de divulgação do Movimento pela Libertação dos Presos do Araguaia (MPLA), que seria distribuído, dois dias depois, durante a romaria do Círio de Nazaré. Foi aberto um inquérito policial-militar com o enquadramento na Lei de Segurança Nacional (LSN) do diretor do jornal e também sócio da gráfica. Meses depois a denúncia foi rejeitada pela Auditoria Militar e o caso encerrado.

 

            Maklouf também trabalhou no extinto jornal “O Estado do Pará” e na Rádio Cultura do Pará (OT), quando os estúdios ainda funcionavam no município de Marituba. Colaborou com vários jornais alternativos, entre eles o “Movimento”. Foi coautor dos livros “Pedro Pomar” (1981) e “A igreja dos Oprimidos” (1986). Em 1984 mudou-se para São Paulo onde trabalhou em grandes jornais e escreveu outros livros, entre eles, “Contido à bala”; “Cobras Criadas”; “Já vi esse filme”; e “O cadete e o capitão”.

 

            Mak nos deixou, mas sua história de resistência jamais será esquecida. Assim como a pessoa alegre, criativa e solidária. É disto que desejo lembrar sempre. Nas fotos, com João Vital; na formatura em Direito, com Huascar e Vera Tavares

; com Paulo Fonteles e Hecilda Veiga, na Auditoria Militar; na redação do jornal "O Estado do Pará (1980); capas do Resistência e da edição especial "Informação Ameaçada", de O Estado do Pará.

 


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