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14º Prêmio SDDH de Direitos Humanos é entregue com novidades


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A pandemia exigiu a cautela de um número reduzido de participantes presenciais e esforço pela abertura para interlocução virtual. Contou com o lançamento da cartilha de poesia e da nova edição do Jornal Resistência.

 

“Regar tuas plantas

É tipo que você querer ser médico

Você tem que estudar

Regar tuas plantas

Eu acho que é um sonho”

Aryele Maria – Meta.

 

Por Erika Morhy


            O delicado poema de Aryele Maria integra a cartilha ilustrada “Juventude e direitos humanos: um olhar poético sobre a Amazônia”, apresentada publicamente pela Sociedade Paraense de Direitos Humanos (SDDH) nesta quinta-feira (14), em Belém (PA). Sua beleza é muito simbólica da força que garantiu a realização do 14º Prêmio SDDH de Direitos Humanos conferido pela entidade durante um chuvoso inverno amazônico e, sobretudo, em meio às dramáticas notícias que chegavam a respeito da vizinha cidade de Manaus (AM). A ocasião foi também para celebrar o lançamento de mais uma edição do histórico Jornal Resistência, para se fazer uma análise de conjuntura política e se emocionar com a performance da drag Lissandra Candy. Por medidas sanitárias, a agenda se deu com um mínimo de participantes presentes no Hotel Sagres e outra parte se deu por meio de plataforma on-line.

            Ativistas de diferentes gerações e frentes de atuação se reconhecem entre si aos poucos no saguão e na sala do hotel. Nada de abraços calorosos ou apertos de mão efusivos. Fisionomias encobertas por máscaras, sobretudo de tecido; as estampas variam entre elementos marajoara e afro, escudo de clube de futebol e identidade de organizações sociais, chita e girassóis.

            A coordenadora de Comunicação da SDDH, Antônia Salgado, fez a abertura da programação destacando dos desafios de manter o calendário anual em um momento que exige distanciamento social e enfrentamento de barreiras tecnológicas peculiares para a população da Amazônia, tendo sido priorizada, em dezembro de 2020, a celebração de aniversário de uma entidade parceira, o Emaús. O 14º Prêmio SDDH de Direitos Humanos, assim, foi transferido para janeiro de 2021 e ganhou o formato semi-presencial, com participantes e parceiros de outras cidades e estados do Brasil estabelecendo contato com os presentes por meio de vídeos gravados ou ao vivo.

            Coordenador geral da entidade, Marco Apolo Santana Leão se solidariza com a população de Manaus e destaca que a tragédia poderia ter sido evitada. Em suas palavras, desmontar o fascismo no Brasil e defender o Sistema Único de Saúde (SUS) são tarefas prioritárias e lembrar de companheiros de luta, assim como compartilhar o resultado de atividades que a SDDH vem desenvolvendo, cotidianamente, lhe dá muita alegria.

            Conjuntura - Coordenadora de Formação da SDDH, Fátima Matos dirigiu a mesa de conjuntura política e ponderou a dualidade exposta pela pandemia, em que o individualismo do cuidar de si e a urgência da solidariedade uns com os outros estiveram em disputa. A participação, ao vivo, de Luis Antônio Câmara Pedrosa, advogado e integrante da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH), foi projetada em telão na sala de reuniões. Ele lembrou que a pandemia deveria colocar a sociedade mais de frente com o modelo de desenvolvimento que avança sobre as florestas, no entanto, o drama brutal das mortes tem obscurecido esta possibilidade.

            Em sua avaliação, a derrota de Donald Trump para Joe Biden nas mais recentes eleições presidenciais norte-americanas quebra um elo estratégico da agenda conservadora internacional, dando espaço de contraposição importante. Quanto ao pleito no Brasil, Pedrosa acredita que a unidade tem cheiro de vitória, a exemplo do que ocorreu nas eleições municipais de Belém, com a formação de uma frente única, elegendo a chapa Edmilson Rodrigues (Psol) e Edilson Moura (PT) para a Prefeitura. Ele defende que a mesma unidade precisara ser feita para as eleições no Congresso Nacional, às voltas com a disputa pela Presidência da Câmara Federal, em um esforço para vencer o candidato de Jair Bolsonaro, Arthur Lira. Pedrosa reitera, por fim, que cada entidade precisa insistir em estar mais perto de suas comunidades e apostar nas novas tecnologias da informação e comunicação como aliadas.

            Em mensagem de vídeo gravada, Deise Benedito, mestre em Direito e Criminologia (UNB) e ativista do movimento negro, convoca a que representantes e lideranças de organizações presentes fomentem uma fina reflexão sobre seu próprio lugar de atuação e redes de articulação, seja no campo da saúde, moradia, trabalho ou educação. E deixa um apelo para que se crie um grande arco de amizades e se priorize a aplicação da vacina na população, “porque todas as vidas humanas importam”.

            Paulo Carbonari, doutor em Filosofia e integrante do Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH), igualmente por vídeo gravado, parafraseia o poeta João Cabral de Melo Neto e lembra que muitas vidas poderiam ter sido preservadas, não se perderam “de morte morrida”, mas se perderam no curso da necropolítica. Sem auxílio emergencial para as famílias e com o imbróglio sobre a aplicação da vacinação, ele ainda vislumbra um ano muito difícil e recomenda boa dose de alegria para que se contribua com a construção de dias melhores.

            

Arte – Secretária da SDDH, Cassandra Bonifácio apresentou à plenária virtual e presencial o artista Bonelly Pignátario, que iniciou sua vida teatral na igreja de São Francisco de Assis, em 2005. Ele é formado pela Escola de Teatro e Dança, da UFPA, faz parte do grupo de teatro da Unipop e do grupo Limítrofe e, há 5 anos, faz performance como drag queen, é Lyssandra Candy. Seu espetáculo abordou o luto e o cuidado, contou com a fluidez dos véus nas roupas e a suavidade da maquiagem e manejou elementos cênicos bastante emblemáticos: simulações de uma caveira e de uma cruz e muitas máscaras faciais.

            Cartilha – Resultado do Projeto Educar e Resistir por Direitos Humanos na Amazônia, desenvolvido pela SDDH entre os anos de 2017 e 2020, em parceria com a Organização Protestante Pão para o Mundo e a Fundação Heirinch Boll, a cartilha ilustrada “Juventude e direitos humanos: um olhar poético sobre a Amazônia” reúne poemas produzidos durante atividades nos bairros do Jurunas, Bengui, Guamá e Canudos, em Belém. Shaira Mana Josy, rapper, MC, poeta e pedagoga, ministrou as oficinas e garante que é preciso oferecer oportunidades à juventude da periferia, assim como acontece com ela, que se define mulher negra, periférica, do bairro popular da Terra Firme. Durante os encontros, o trabalho de cada um, conta ela, era o de escrever sobre si de forma poética e tudo foi sistematizado sobre os temas que tratam de amor, motivação, racismo, esperança, violência, territórios, corpos e mentes.

            Jornal Resistência – A publicação de mais uma edição do periódico criado pela SDDH em 1978 é prova da obstinação que está na essência da entidade. Dos embates ostensivos contra a censura, passando pelas crises econômicas e pelas novas práticas de consumo de informações na sociedade, o Jornal Resistência se mantém em sua versão impressa, mas já sendo acessível digitalmente. Editor da edição, o jornalista Cristivan Alves agradeceu a oportunidade de assumir sua primeira experiência deste porte, destacando que ultrapassou os limites impostos a quem vem de uma comunidade quilombola, como ele, para estudar um curso superior e que se formou há apenas um ano.

            Prêmio – O 14º Prêmio SDDH de Direitos Humanos foi entregue para o projeto Cria Preta, para o coletivo Ilustra Pretice, para a Juventude Quilombola de Jacunday (Moju-PA), para o coletivo Afrocine e para a Rede Paraense de Pessoas Trans. A entidade conferiu a condecoração In memoriam ao advogado Egídio Machado Sales Filho, falecido dia 2 de agosto de 2020.

            Ex-presidente da SDDH, o advogado Marcelo Freitas recebeu o prêmio em nome da família do seu colega Egídio Sales, recordando que o conheceu em 1988, na cidade de Marabá, por ocasião do depoimento do temido Sebastião da Terezona, em audiência da Chacina da Fazenda Ubá. A postura alegre e de quem ensina que viu naquele primeiro momento, conta, perpassou por todos os lugares que Egídio ocupou, como a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-PA) e a secretaria municipal [de Assuntos Jurídicos].

          A programação contou com a participação de conselheiros e conselheiras da entidade e de representantes de organizações parceiras, como o jornalista e cientista político Max Costa, coordenador Instituto Universidade Popular (Unipop) e futuro secretário Extraordinário de Cidadania e Direitos Humanos, de Belém.

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